meus escritos

Dar a conhecer à comunidade os textos de minha autoria, alguns publilcados em coluna semanal em jornal aqui da terra - Cruzieor/SP - ou partes de alguns de meus livros.

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Terra Blog

15.10.08

O MESTRE

Se minha irmã tomar conhecimento deste texto me dirá a mesma coisa que me disse quando saiu meu registro de jornalista profissional: “Quem diria?”
Aliás, não só deste texto, mas de todos aqueles em que defendo com unhas e dentes o melhoramento do ensino, a partir do pré até o universitário.
Fui terrível, arteiro, gazeteiro e com muito pouco gosto pelos estudos, embora tivesse boa cabeça. Diversas vezes repetente. Em quase todas as matérias. Exceto em português.
E é exatamente essa minha rebeldia quanto aos estudos que me faz partir para a insistência da melhoria das escolas, da minha insistência para que os jovens tenham dedicação com o aprendizado, pois a sorte que tive e tenho é minha, cada um tem a sua e temo que nem todos possam ter uma assemelhada.
Àquela época – sem saudosismo – bastava ser alfabetizado para não se ficar parado. Restava ainda uma vaga no cais do porto, para estivador ou bagrinho. Hoje até para essas funções está difícil para se trabalhar, pois tudo é mecanizado, automatizado e a força braçal é uma coadjuvante que rareia a cada dia.
Hoje o número de vagas abertas e de difícil preenchimento no comércio, e, principalmente na industria, é imenso. Não há candidatos a altura, com competência. Estamos importando mão de obra especializada.
Toda esta prosopopéia é em virtude da semana do professor, pois hoje é DIA DO PROFESSOR.
Vasculhando meus arquivos deparei-me com uma entrevista dada pelo mestre Paulo Freire, ao jornalístico Dois Pontos, de Nye Ribeiro Silva, ao qual não tenho a alegria de conhecer, mas peço licença para pinçar alguns trechos para aqui apresentar.
Nye assim descreve: Inicia ele uma fala sobre sua grande e apaixonante experiência de educador, sobre a prática educativa e as relações entre educadores e educandos. Seus pensamentos fluem com clareza e nitidez, como água de uma fonte. Cada gesto seu revela uma idéia gigante, e as palavras vêm carregadas de vivência e sabedoria - palavras geradoras, palavras vivas.
O jornalista o vê como alguém que sonha. “O sonho faz parte natural da minha presença no mundo”, afirma. Paulo Freire sonhava com uma sociedade mais humana, na qual o amor seja possível. Paulo Freire sonhava com a invenção de uma sociedade ética, estética, livre e decente.
-Quando se fala em alfabetização de adultos, no Brasil, necessariamente se fala em Paulo Freire e em seu trabalho como professor-educador, ligado à educação popular: Como foi que tudo começou?
-Essa questão me traz de volta uma pergunta que eu mesmo já me fiz algumas vezes: como é que cheguei até aqui? Como é que comecei a girar a minha vida em torno de um certo núcleo de preocupações - no fundo preocupações pedagógicas e políticas - ligadas obviamente ao problema da produção do conhecimento, à questão do ensino, do aprender propriamente dito? Começaria dizendo a você que eu não acredito que ninguém nasce sendo isto ou aquilo, não acredito que ninguém nasce mais ou menos predeterminado. O que eu acho é que todos nós, homens e mulheres, somos “seres programados para aprender”. Repetindo a afirmação do grande cientista - François Jacob, numa entrevista que ele deu ao Correio da Unesco, eu acrescentaria: somos seres programados para aprender; mas também para ensinar. Eu não separo jamais uma coisa da outra, e não tenho dúvida de que, milenarmente, no campo da História, foi exatamente essa percepção que nos levou a descobrir que era possível ensinar. Isto é: o ensino não foi o começo, o começo foi o conhecer, foi a aprendizagem. Foi aprendendo que a gente descobriu que era possível ensinar a aprender. Eu parto daí. Agora, enquanto ser programado para aprender e para ensinar, e portanto para conhecer, eu posso me fazer na minha prática social um profissional especializado exatamente em ensinar e aprender.

É uma pena que não tenhamos espaço suficiente para a íntegra dessa magnífica entrevista. O intuito porém é o de homenagear aqueles profissionais que lidam com aqueles que necessitam de se sintonizar com o mundo de maneira parelha, com conhecimentos para poder enfrentar as concorrências e vencer.
Lembrar de Paulo Freire é arremeter o ofício sublime do ensinamento ao grau de sacerdócio, pois exige sacrifícios, dedicação, paciência, compreensão e, por incrível que pareça, o exercício do perdão, pois se assim não for não se conseguirá trazer para junto de nós aquelas ovelhas desgarradas e perdidas.




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