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Dar a conhecer à comunidade os textos de minha autoria, alguns publilcados em coluna semanal em jornal aqui da terra - Cruzieor/SP - ou partes de alguns de meus livros.

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Terra Blog

28.07.08

A PIMENTA

Naquela casa sempre houvera harmonia, união e amizade entre todos. Viviam alegremente a comemorar qualquer coisa. O prazer real era a reunião da família, e se possível, dos amigos. Agora a desculpa era o dia das mães, que se aproximava. A família reunida discutia, então, sobre o que se havia de fazer. Um almoço, sim, seria um almoço. Entraram em acordo, então, sobre qual seria a comida. Feijoada à moda da casa. Estava decidido. A contagem do número de pessoas que participariam era essencial para a compra dos ingredientes. A lista não é pequena, pois há que se pensar em todos os detalhes, desde o sal até a cachacinha para a caipirinha, que não pode faltar nessas ocasiões. O número de pessoas decidido, decididas as compras necessárias.
Toninho, o chefe do clã, de posse da extensa lista, partiu para as compras. Produtos havia que seriam encontrados no supermercado do bairro, outros na feira ou ainda em casas especializadas. Faria tudo com calma para que não se esquecesse de nenhum artigo ou detalhe.
Maria, esposa de Toninho, e Rosinha, a filha mais velha, ficaram então no encargo da cozinha e da confecção da – na classificação própria – melhor feijoada que se tem conhecimento. A modéstia passa ao longo, mas dizem ser verdade.
A azáfama se estabeleceu e não havia ninguém que não tivesse uma atividade e que não estivesse se movimentando. Maria escolhia os feijões, reclamava do excesso de caroços inaproveitáveis, separava a sujeira e recolhia os grãos à panela. Toninho cortava as carnes, selecionava a lingüiça e os torresmos para o tira gosto. Clarinha, a caçula, cuidava das crianças, que com o alvoroço dos adultos se alvoroçavam também. Rosinha cortava a couve em tiras, as mais finas possíveis, assim como cuidava das especiarias típicas do prato. “Quem vai fazer o molho a vinagrete?”, perguntou Maria. Toninho se prontificou e pôs as mãos à obra. Paciente como sempre fora começou a picar os tomates, a cebola e a salsa e, em instantes, estava pronto o molho. Foi então que se lembrou de que faltava a pimenta. “Acabou”, disse Maria. Imediatamente Toninho saiu para o supermercado para comprar o tempero. Lá chegando se deparou com uma pimenta a granel, tida como forte e muito saborosa, e a comprou, em vez da em vidro.
O molho de pimenta teria de ser servido à parte, pois nem todos gostam de pimenta. Rosinha então proclama: “Não como pimenta. Passarinho que come pedra sabe a cloaca que tem”. Toninho, com a calma que lhe é peculiar começa a picar a pimenta em pedaços mínimos. “Pô, grita Maria, esse negócio é mesmo muito forte, pois o cheiro dominou a cozinha toda, superando até o cheiro da feijoada que já se faz sentir”, “De fato, observava Toninho. Acho até que o sabor deve ser primoroso”.
Conversa vai, conversa vem, o trabalho ia sendo realizado nos moldes propostos, ou seja, todos juntos e alegres. Maria e Rosinha, entretanto, tinham uma preocupação, que era a de que Toninho ficasse esperto quanto ao manuseio da pimenta, pois com o aroma tão forte, deveria ser também muito gostosa e ardida, deveria ele também ter cuidado para não se distrair e passar as mãos na boca ou nos olhos.
Já se aproximava das treze horas, hora de se saborear tão bem preparado prato, quando começam a chegar amigos e demais parentes também convidados. Marcos, o filho, começou a servir a caipirinha e colocou à mesa os torresmos sequinhos e crocantes à guisa de aperitivo. A conversação era então dispersiva e alegre, com as mais variadas piadas a descontrair a todos, quando se ouviu angustiado grito:
_AAAAAAAAAAAIII!!!
_Que grito foi esse?
_Não sei, veio lá de dentro.
_Cadê o Toninho, quis saber Maria.
_Foi ao banheiro, respondeu Marcos.
_A PIMENTA.






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