meus escritos

Dar a conhecer à comunidade os textos de minha autoria, alguns publilcados em coluna semanal em jornal aqui da terra - Cruzieor/SP - ou partes de alguns de meus livros.

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Terra Blog

Arquivo de: Outubro 2008

06.10.08

À ANA

Conta-se que por volta do ano 250 a.C. na China antiga, um príncipe da região norte do país estava às vésperas de ser coroado imperador, mas, de acordo com a Lei, ele deveria casar.
Sabendo disso, ele resolveu fazer uma “disputa” entre as moças da corte ou quem que se achasse digna de sua proposta.
No dia seguinte, o príncipe anunciou que receberia, numa celebração especial, todas as pretendentes e lançaria um desafio.
Uma velha senhora, serva do palácio a muitos anos, ouvindo os comentários sobre os preparativos, sentiu uma tristeza, pois sabia que sua jovem filha nutria um sentimento de profundo amor pelo príncipe.
Ao chegar em casa e relatar o fato à jovem, espantou-se ao saber que ela pretendia ir à celebração, e indagou incrédula:
-Minha filha, o que você fará lá? Estarão presentes todas as mais belas e ricas moças da corte. Tire essa idéia insensata de sua cabeça, eu sei que você deve estar sofrendo, mas não torne o sofrimento uma loucura.
E a filha respondeu:
-Não, minha mãe, não estou sofrendo nem louca, eu sei que jamais poderei ser a escolhida, mas é minha oportunidade de ficar pelo menos alguns momentos próxima do príncipe, isto já me faz feliz.
À noite, a jovem chegou ao palácio. Lá estavam de fato, todas as mais belas moças, com as mais belas roupas, com as mais belas jóias e com as mais determinadas intenções. Então, finalmente, o príncipe anunciou o desafio.
-Darei a cada de vocês uma semente. Aquela que dentro de seis meses me trouxer a mais bela flor, será escolhida minha esposa e futura imperatriz da China.
A proposta do príncipe não fugiu às profundas tradições daquele povo, que valoriza muito a especialidade de “cultivar” algo, sejam costumes, amizades, relacionamentos etc.
O tempo passou e a doce jovem, como não tinha muita habilidade nas artes da jardinagem, cuidava com muita paciência e ternura a sua semente, pois sabia que se a beleza da flor surgisse na mesma extensão de seu amor, ela não precisava se preocupar com o resultado.
Passaram-se três meses e nada surgiu. A jovem tudo tentava, usava de todos os métodos que conhecia, mas nada havia nascido.
Dia após dia ela percebia cada vez mais longe seu sonho, mas cada vez mais profundo o seu amor. . .
Por fim, os seis meses haviam passado e nada havia brotado. Consciente de seu esforço e dedicação a moça comunicou a sua mãe que independente das circunstâncias retornaria ao palácio, na data e hora combinadas, pois não pretendia nada além de mais alguns momentos na companhia do príncipe.
Na hora marcada estava lá, com seu vaso vazio, bem como todas as outras pretendentes, cada uma com uma flor mais bela do que a outra, das mais variadas formas e cores.
Ela estava admirada, nunca havia presenciado tão bela cena.
Finalmente chega o momento esperado e o príncipe observa cada uma das pretendentes com muito cuidado e atenção.
Após passar por todas, uma a uma, ele anunciou a mais bela jovem como sua futura esposa.
As pessoas presentes tiveram as mais inesperadas reações. Ninguém compreendeu porque ele havia escolhido justamente aquela que nada havia cultivado.
Então, calmamente o príncipe esclareceu:
-Esta foi a única que cultivou a flor que a tornou digna de se tornar uma imperatriz. A flor da honestidade, pois todas as sementes que entreguei eram estéreis.

“A HONESTIDADE É COMO UMA FLOR TECIDA EM FIOS DE LUZ, QUE ILUMINA QUEM A CULTIVA E ESPALHA CLARIDADE AO REDOR.”





02.10.08

VINTE ANOS DEPOIS

O país já passou por muitos e obscuros momentos em sua história, estados de exceção que tolhiam as liberdades individuais e nos acorrentavam às vontades dos dirigentes da época.
Por vezes sequer havia uma situação definida, mas com turbilhões e agitações políticas que nos tirava a tranqüilidade. O fim da Grande Guerra trouxe também o fim do período ditatorial de Getúlio Vargas, com a eleição do General Dutra.
Getúlio volta ao poder, em 1951, através de eleições livres, mas, premido pela situação política do momento, deu cabo de sua vida e abriu caminho para uma instabilidade longa. Até chegarmos na eleição de JK, em 1955, tivemos vários presidentes, pois o vice de Getúlio, João Café Filho foi destituído, assim como Carlos Luz. Foram momentos tensos, nervosos.
O período de governo de JK também não foi de céu azul, mas o minerim levou até o fim seu mandato, “50 anos em 5”, construindo a nova capital, abrindo estradas de rodagens, abriu as portas da indústria automobilística e da industrialização do País. Sem esquecermos da inflação, claro.
O passo seguinte trouxe um tornado político chamado Jânio Quadros. Foi ele eleito com esmagadora votação, representativa das esperanças do povo e sua posse é até hoje considerada a maior festa popular de Brasília, guardadas as devidas proporções, claro.
Por questões de foro íntimo, até hoje mal explicados, retirou-se do palácio e se foi.
O mundo vivia, à época, dividido em ideologias de direita e de esquerda. Seu vice, João Goulart, tido como um líder de pouco ou nenhum carisma, esquerdista, abriu brechas para a evolução de ideais marxistas.
Mais uma vez tomada pelo medo a sociedade socorreu-se dos militares que se impuseram e implantaram mais um período de cabresto. Até hoje não sei dizer se foi melhor ou pior.
Se a situação interna era amarga, no mundo não era melhor. Em 1962, no episódio da Baía dos Porcos, em Cuba, o mundo andou no fio da navalha.
Aqui sustentávamos um tempo em que nos era proibido tudo. Até de pensar nos restringiam. Muitos idealistas sucumbiram em defesa daquilo que julgavam certo. Houve perdas de ambos os lados. E não foram poucas.
Em 1984, derrota das ‘Diretas Já’, mas em 1985, José Sarney assume o poder civil e convoca a Assembléia Nacional Constituinte, que elaborou nossa sétima Constituição, texto basicamente elaborado sob a batuta do deputado Ulisses Guimarães, o ‘Senhor Diretas’.
Naquele plenário muito se discutiu, se aprovou e se brigou, mas havia uma beleza que não mais se encontra. Seus integrantes, salvo as exceções de sempre, eram os melhores políticos e oradores, e muitos dos maiores intelectuais. A qualidade era muitos furos acima do que conhecemos. Enumerá-los seria por demais exaustivo, além das omissões que com certeza cometeria.
A esquerda aprovou uma coleção razoável de direitos trabalhistas e sociais, tais como a universalização da seguridade social e a implantação do SUS.
Ulisses Guimarães dirigia os trabalhos com pulso firme e mão de ferro, mas com educação e sensibilidade suficiente para se desculpar publicamente com o então deputado Alceni Guerra, que propusera a licença-paternidade, alegando que seria “uma homenagem ao pai gestante”. Aos críticos da nova Constituição afirmava que “o povo nos mandou aqui para fazê-la, não para ter medo”.
No dia 5 de outubro de 1988, o deputado Ulisses Guimarães promulgou a Constituição e a chamou de ‘Constituição Cidadã’, que teve como escopo a reconstrução do estado de direito democrático. Em seu discurso disse ele que sua Constituição cidadã teria “cheiro de amanhã, e não de mofo”. Foi também enfático ao afirmar que “temos ódio à ditadura. Ódio e nojo”.
Ela aí está a viger, mas ainda não consolidada. O voto é livre, mas ainda é obrigatório.
Os vinte anos de nossa atual Constituição serão comemorados de maneira civilizada e cívica, com as eleições municipais. Saibamos em quem votar e não estraguemos a festa.