meus escritos

Dar a conhecer à comunidade os textos de minha autoria, alguns publilcados em coluna semanal em jornal aqui da terra - Cruzieor/SP - ou partes de alguns de meus livros.

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Terra Blog

Arquivo de: Junho 2008

15.06.08

UFA!


Nossa, que calor sufocante! Isto está mais parecendo um deserto. É areia que não acaba mais e ainda por cima vem esta ventania levantando uma poeira incrível, mas, o mais incrível é que não me afeta os olhos.
O caminhar é difícil, pois nossos pés afundam no areal fervente e os passos se tornam lentos, arrastados. Por mais esforço que faça não me canso. Minha vista se perde na imensidão. Não consigo enxergar ninguém. De repente ouço um barulho ensurdecedor. Crashbrum. Olho para a direita e vejo dois caminhões de cervejarias concorrentes que se chocam violentamente espalhando líquido fétido pelo chão. Muitas pessoas são atingidas e caem por terra, ou melhor, pela areia, formando esculturas de suas silhuetas. A areia mais a cerveja formam o bolo de que se compõem as figuras. Uma delas, que me lembrou o Zezé, irmão mais novo de meu falecido pai, passou correndo por mim e agora não consigo encontrá-lo. Deve estar atrás de alguma duna dessas com alguma negrinha. O forte vento que se aproximava dissolve as figuras, que se desvanecem, somem.
A situação é confusa, muitas pessoas andam de um lado para o outro de forma desconectada. De repente me vejo andando nu entre a multidão. É muito desconfortante a situação, pois não tenho como me esconder, mas observo que ninguém toma conhecimento de minha presença. Num momento seguinte já não estou pelado. Estou de sapatos e meias. Ah! Melhorou. Ao simples desejo deslumbrado por meus pensamentos, tenho vontade de fazer coco e encontro uma latrina no meio da rua, sem tampa e pessoas passando descompromissadamente por ali sem tomar conhecimento de nada. Sento-me ao vaso e faço minhas necessidades e uma velhinha me entrega uma folha de jornal para me limpar e fala: “Fique à vontade, é de hoje, mas eu já li”. Da mesma forma em que sentei ali e fiz o que fiz e me fui e ninguém se manifestou, fui embora e ninguém nem notou. É cada um por si.
Um apito muito alto, estridente, chama a atenção de todos. Um navio da Marinha de Guerra, um encouraçado, atravessa o local jogando areia em todos. A nave está em estado lamentável e em um dos rombos de seu casco dá para se observar belos exemplares de cavalos de corrida, todos feridos e relinchando com suas dores. No centro da nave, no setor mais alto, acima da torre de comando, um homem enforcado, com a cabeça pendente, enegrecida, com os olhos esbugalhados e com quase um palmo de língua para fora nos acena com uma das mãos e com a outra faz um sinal de positivo com o polegar para cima. Aliás, ele só tem o polegar. No convés de popa muitas pessoas participam de uma festa pouco convencional. São situações de sodomia e bagunça, com casais nada convencionais, mistos e esquisitos. O navio tem cinco hélices, concêntricas, mas que giram em sentidos diferentes levantando muita areia para todos os lados. Ao final, sentado na beirada do barco, com os pés para fora está um homem, muito provavelmente o comandante, com seus trajes estropiados, sujos e rasgados, descalço, tem os olhos estranhos, pois um é quase fechado e outro é esbugalhado e torto e está soltando uma pipa que é só armação, não tem papel.
Assim que o navio passa, começam a chegar alguns cavaleiros, muito provavelmente tuaregues, pelos trajes, montados em animais que são um misto de cavalos e camelos, uma espécie de macrauquênias e que têm seus rostos cobertos, como os povos dos desertos, mas não se consegue ver-lhes os olhos. Passam impondo suas figuras de um certo garbo, mas se vão.
As figuras mais desconcertantes desfilam pelo lugar. Uma mulher muito magra, esquálida mesmo, com a cara extremamente enrugada, cabelos desgredenhados, vesga, sem dente algum na boca e um hálito pútrido, só com uma calcinha larga e suja, com apenas uma teta murcha no centro do peito, caminha amamentando um leitãozinho vermelho e arrastando o filho pelos poucos cabelos. Em dado momento ela pára e um cachorro pestilento, coberto de chagas e rosnando para todo mundo começa a lamber-lhe o sexo, e só pára quando ela se dá por satisfeita soltando um urro estridente. É quando volta a andar que então se percebe que ela porta um rabo muito longo e fino, como dos roedores, que se agita de satisfação. O espetáculo é horrível, mas inevitável.
Em uma esquina um homem com uma espécie de bíblia sob o braço faz saudações e profetiza. Ao seu redor pessoas o ouvem, umas crédulas, outras céticas, outras com interesses nada condizentes com a situação.
Faz a leitura do Apocalipse, de João, capítulo VI, sobre os quatro cavaleiros, montando cada um, um cavalo de cor diferente. Fala com convicção e fervor, critica o modus-vivendi do povo e fala em final dos tempos. Aponta para mais além e mostra que os cavaleiros apocalípticos haviam subido a rampa de acesso ao Palácio e se colocavam sobre a cobertura de uma das casas, a que tem o sentido não emborcado e que estão amarrando seus cavalos. São cavalos de todas as cores e estão enchendo aquele telhado de excrementos. Ele fala convicto de que os animais estão cobrindo aquele ambiente com o mesmo material com que outros elementos encheram internamente. Explica que o cavalo vermelho simboliza a tirania, a força, a violência, a guerra, a desunião, a prepotência, tem, em suas palavras, a simbologia das depravações morais, sociais e éticas dos dias atuais. O cavalo preto representa a ganância, a ambição, a usura, o desequilíbrio social. O cavalo amarelo representa a corrupção, a depravação, enfim, representam todas as mazelas praticadas naquelas casas do povo.
Em seu fervor falava de nossos sentimentos e falta de fé, mas se empolgava ao falar do cavalo branco, que representa, segundo ele, a idéia original e primeira de Deus: a Perfeição, o Bem, os Princípios Morais, que haverão de prevalecer, assim que nos ativermos às nossas melhorias internas.
Dentro de toda essa mixórdia alguém fala com discernimento e de forma conexa. Já que quem está lá dentro daquela casa jogou merda na sociedade nada melhor que a retribuição dos cavaleiros apocalípticos.
Volto-me a caminhar para o local de partida quando comecei a desfilar pelo imenso areal. As situações se modificam, mas não deixam de ser surrealistas, complicadas. Pergunto a um caolho que se aproxima de mim sobre o navio de guerra que passara por ali. Ele me diz que estava logo ali adiante e que estava afundando. De fato, lá estava uma nave já imbicada na areia pronta para ser tragada por aquele mar estranho. Observo, porém, que aquele navio que está afundando é de madeira, talvez um galeão, muito velho, pois seu madeirame está podre. Ah! Também que diferença faz, está afundando mesmo!
Sinto-me esfogueado, a garganta seca, transpiro muito e começo a sentir um cansaço que até então não sentira. Junto aos caminhões de cerveja que haviam batido aparecem uns leões que a tudo farejam e passam por nós sem tomar conhecimento de ninguém. Procuram algo. Espero que não estejam com fome e que sequer olhem para mim. O maior deles, de juba negra, se chega perto de mim. Tremo só de pensar o que poderá me acontecer. Ele me fareja, fareja, me olha de soslaio e me pergunta: Onde você colocou minha boneca de trapo? Não sei. Não vi. Ele começa a chorar copiosamente e se vai, não sem antes me mostrar a língua de maneira desaforada.
As dunas são muito altas, mas lá de cima apontam alguns Jet-Skys com alguns boyzinhos apostando corrida, gritando palavras de ordem e se fazendo de gostosos nos seus brinquedos. Passam por nós em alta velocidade, ameaçam jogar os veículos sobre a multidão. Repetem essas façanhas por várias vezes deixando a todos assustados. Agora vem de novo em nossa direção e o Jet vermelho, com o garoto de cabelos da cor de fogo, parece ter se descontrolado e se aproxima perigosamente em minha direção. Fico estático de pavor, não consigo me mover e aquela engenhoca em velocidade cada vez maior se aproxima de mim e me parece ser inevitável o atropelamento. Sua figura cresce aos meus olhos, está cada vez mais perto e...

_Ah! Ufa! Consegui acordar!



14.06.08

GAIJIN


Em meados do século XIX, mais precisamente em 1868, o povo japonês e seu governo defrontavam-se com um duro e longo período de transição, pois passavam do feudalismo para o regime capitalista.
Modificar um sistema milenar era realmente coisa difícil de se defrontar. O governo japonês resolveu incentivar a emigração como uma das fórmulas de solução. Vários milhares de nipônicos partem então para outras plagas e partem para a Austrália, os Estados Unidos, o México e o Peru, mas não deu certo, pois a maioria acabou voltando. Tantos foram os japoneses que entraram nos Estados Unidos que, em 1908, essas entradas foram proibidas.
Nesta semana que se inicia, no dia 18, celebra-se o centenário da primeira leva de imigrantes japoneses, que aportaram no cais do armazém 14, em Santos, a bordo do Kasato Maru. Eram 158 famílias – 785 pessoas.
Nosso território, imenso, carecia de mão de obra e foram esses imigrantes designados para as fazendas de café, mas terminaram na olericultura, onde ainda hoje batalham, formando, pelo menos em São Paulo, o grande cinturão verde que a sustenta, onde fizeram experiências com as mais variadas verduras e hoje, por isso, desfrutamos de uma qualidade e variedade inigualáveis.
O chamado cinturão verde de São Paulo abriga uma das maiores concentrações de nipodescendentes do país. Desiludidos com o plantio de café no oeste do estado, que rendia bem menos do que lhes prometeram, alguns imigrantes acabaram se estabelecendo ao redor da capital para cultivar verduras, legumes e, mais tarde, frutas, como forma de atender o consumo próprio e a demanda crescente na metrópole.
Na década de 1920 chega por aqui, entre milhares de outros, uma jovem, cujo nome era Yassoko Takahashi, a quem carinhosamente chamávamos de “tia Catarina”. Tinha ela consigo todo o carinho de uma família enorme. Por uma ironia sem tamanho ela morreu atropelada por uma moto Honda. Tenho muita saudade dela e de seu falar quase ininteligível, embora já estivesse por aqui há mais sessenta anos. Seus filhos, netos e bisnetos – meus tios e primos – moram na cidade de São Paulo. Tia Catarina era uma imigrante urbana.
Momentos cruciais para a colônia japonesa aconteceram durante a Segunda Guerra Mundial, quando o governo brasileiro decretou guerra ao Japão (agosto de 1942). Com seus bens confiscados e confinados no interior, proibidos de ensinar o idioma japonês, as centenas de nipocomunidades foram submetidas a um silêncio que até hoje apresenta seus efeitos na historia da imigração no Brasil. As relações diplomáticas entre o Japão e o Brasil só foram restabelecidas no inicio dos anos 1950. Durante esses anos havia uma revolta surda, pois era perigoso torcer pelo próprio país. Todo cuidado era pouco na vivência não só com os “inimigos”, mas principalmente com os compatriotas inconformados com a derrota japonesa na guerra. Foram muitos os dissabores e muitas as feridas causadas, feridas essas que demoraram muito para fechar.
O governo japonês, ao comprar vastas extensões de terras e distribuí-las para sua gente, promoveu uma reforma agrária, não lá, mas aqui no Brasil, principalmente nos estados do Paraná e São Paulo, locais onde era e é maior a concentração de nipodescendentes.
A guerra, porém, não os afastou de suas culturas. Quando as reuniões e a língua estavam proibidas, escolas clandestinas funcionavam em fundos de quintal, pois, segundo um imigrante, uma importante forma de manter a cultura eram as escolas, pois ali além do japonês, tinham gincanas, teatro, festas.
Assim como no inicio o grande fluxo migratório era no sentido da Ásia para cá, nos últimos vinte anos ele se inverteu, quando descendentes de nipônicos para lá partiram a procura de trabalho, que se tornava tão escasso por aqui – os dekasseguis.
Hoje vivemos dentro de uma normalidade incrível, com companheiros e amigos dos quais muitas das vezes não entendemos ou conseguimos falar-lhes o nome. Mas que são tão brasileiros como nós.
Que bom!

08.06.08

Começam as festas


A primeira impressão que o título acima pode sugerir é que esteja eu falando dos festejos juninos que começam a espocar aqui ou ali. Nada contra essas festas, das quais gosto muito.
As festas a que me refiro dizem respeito à democracia.
Os movimentos nos dizem de renovações de valores e que estão em nossas mãos alcançá-los. É chegada a hora da apresentação de pretendentes às Câmaras Municipais e aos Executivos.
Não há nenhuma diferença desta para as demais temporadas eleitorais.
As convenções estão às portas das decisões, da definição de quem são os candidatos, dos debates públicos, de se saber quais os programas de ação dos partidos, mas se faz necessário evitar a personalização em torno de nomes por demais conhecidos. Temos – e já não sem tempo – que priorizar e analisar os programas das legendas - verdadeiras donas dos mandatos. Precisamos conhecer quem e como vão trabalhar aqueles que se apresentam como heróis e salvadores de nossas angustias.
Alguns detalhes devem ser observados por nós, eleitores.
Vamos desconfiar daqueles que prometem trabalhar. Ora, trabalhar não é nada mais que a obrigação de todo e qualquer cidadão com um mínimo de noção de cidadania. Vamos desconfiar daquelas proposições mirabolantes que não nos passam pelo entendimento, visto serem absurdas. Temos que estar atentos às promessas que inevitavelmente nos serão feitas para podermos cobrá-las lá na frente.
Nos debates públicos que vierem a se realizar – e se realizarão – vamos nos unir, discutir nossos problemas para poder apresentá-los aos senhores candidatos e depois cobrá-los. Individualmente nada conseguiremos. As Associações de Bairros e Clube de Servir devem debater com seus moradores e associados os problemas de suas regiões e levá-los ao conhecimento dos políticos e auscultar-lhes as respostas para as soluções. Como diz conhecido comentarista esportivo “vamos ver quem tem mais garrafas para vender”.
Vamos transformar nossa cidade em um grande palanque, com discussões de assuntos de real interesse de todos. Temos que ter interesse pelas coisas de nossa cidade. Eleger os melhores vereadores e o/a melhor candidato/a, que tenham o desejo de melhorias, de coisas que realmente façam desta a melhor cidade para se viver.
Estejamos atentos às baixarias – inevitáveis – às traições, à hipocrisia, aos discursos rastaqüeras e puxadas de tapete. As maiores barbaridades serão ditas de todos os candidatos. Ouvi-las sim - Graças a Deus não somos surdos -, mas nos deixar levar por elas, em absoluto.
Vamos nós, imprensa escrita e falada, dar a devida relevância aos assuntos políticos – principalmente os sérios - e menos aos que falam de futricas, maledicências, inaugurações e pinturas de guias de meio fio. Vamos incutir em nossos cidadãos o interesse pelo futuro de nossa urbe.
Os próximos dias serão movimentados. Serão de procuras - em ambos os sentidos -, de trocas de idéias e de discussões, no melhor sentido da palavra.
Vamos fazer uma grande festa. Não uma festa junina. Uma festa democrática, elevando nossos valores aos píncaros da ética e da modernidade.
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