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Dar a conhecer à comunidade os textos de minha autoria, alguns publilcados em coluna semanal em jornal aqui da terra - Cruzieor/SP - ou partes de alguns de meus livros.

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Arquivo de: Novembro 2008, 15

15.11.08

PENSADOR RUSSO

O pensador russo Gurdjieff, que no início do século passado já falava em auto-conhecimento e na importância de se saber viver, traçou algumas regras de vida que foram colocadas em destaque no Instituto Francês de Ansiedade e Stress, em Paris.
Segundo os especialistas em comportamento humano, quem consegue praticar a metade destas lições, com certeza terá mais harmonia íntima e menos estresse.
Faça pausas de dez minutos a cada duas horas de trabalho, no máximo.
Repita essas pausas na vida diária e pense em você, analisando suas atitudes.
Aprenda a dizer não, sem se sentir culpado ou achar que magoou. Querer agradar a todos é um desgaste enorme.
Planeje seu dia, sim, mas deixe sempre um bom espaço para o improviso, consciente de que nem tudo depende de você.
Concentre-se em apenas uma tarefa de cada vez. Por mais ágeis que sejam os seus quadros mentais, você se exaure.
Esqueça, de uma vez por todas, que você é imprescindível. No trabalho, em casa, no grupo habitual. Por mais que isso lhe desagrade, tudo anda sem a sua atuação, a não ser, você mesmo.
Abra a mão de ser o responsável pelo prazer de todos. Não é você a fonte dos desejos, o eterno mestre de cerimônias.
Peça ajuda sempre que necessário, tendo o bom senso de pedir às pessoas certas.
Diferencie problemas reais de problemas imaginários e elimine-os, porque são pura perda de tempo e ocupam um espaço mental precioso para coisas mais importantes.
Tente descobrir o prazer de fatos cotidianos como dormir, comer e tomar banho, sem achar que isso é o máximo a se conseguir na vida.
Evite se envolver na ansiedade alheias enquanto ansiedade e tensão. Espere um pouco e depois retome o diálogo, a ação.
Saiba que a família não é você, está junto de você, compõe o seu mundo, mas não é a sua própria identidade.
Entenda que princípios e convicções fechadas podem ser um grande peso, a trave do movimento e da busca. É preciso ter sempre alguém em quem se possa confiar e falar abertamente, ao menos num raio de cem quilômetros.
Saiba a hora certa de sair de cena, de retirar-se do palco, de deixar a roda. Nunca perca o sentido da importância sutíl de uma saída discreta.
Não queira saber se falaram mal de você e nem se atormente com esse lixo mental; escute o que falaram de bem, com reserva analítica, sem qualquer convencimento.
Competir no lazer, no trabalho, na vida a dois, é ótimo...para quem quer ficar esgotado e perder o melhor.
A rigidez é boa na pedra, não no homem. A ele cabe firmeza, o que é muito diferente.
Uma hora de intenso prazer substitui com folga três horas de sono perdido. O prazer recompõe mais que o sono. Logo, não perca as oportunidades de se divertir.
Não abandone suas três grandes e inabaláveis amigas: a intuição, a inocência e a fé.
Por fim, entenda de uma vez por todas, definitiva e conclusivamente: você é o que fizer de você mesmo.
(Gurdjieff – pensador russo)

EM PINDORAMA

Quantas vezes me surpreendo, quando em deliciosa abstração, fazendo avaliações sobre nosso povo e nosssa terra. A grandeza de nosso País com as suas mais variadas paisagens, sempre maravilhosas, sejam elas do interior ou do litoral, me enchem de orgulho e me envaidecem e que gostaria de conhecer ao vivo.
São muitas as regiões e muitas as belezas naturais deste imenso torrão. A Amazônia, imensidão verde e magnífica, traz em seu bojo toda uma gama de histórias e mistérios. As mais lindas são contadas por seus habitantes, índios e caboclos.
Maués, às margens do rio Maués-Açu, com uma área de 40 mil quilômetros quadrados – quase o tamanho da Bélgica – com 40 mil habitantes distribuídos por 120 comunidades, e que fica na região leste do Estado do Amazonas, entre as calhas dos rios Madeira e Tapajós, tem uma temperatura média de 29 graus e tem sua denominação em tupi, que significa papagaio, curioso, falante e inteligente, é um desses lugares que me enchem os olhos e que gostaria de ver. As crianças, em geral sorridentes e de pele morena, olhos castanhos e amendoados e cabelos lisos, características que marcam os traços da gente nativa, ao final do dia se banham na Praia da Ponta de Maresias, nas águas do rio – as mesmas exploradas por seus ancestrais, os índios saterê-mawé, em meados do século 18. Em novembro, em Maués, os rios estão baixos e todos os anos as praias nascem e renascem da terra no período da vazante. Esses cursos d’água guardam muitas lendas, e uma das principais nos fala de Iara, de pele morena, cabelos negros e longos, olhos castanhos – metade mulher, metade peixe – que é a mãe das águas da Amazônia. Como na Odisséia, de Homero, quando Ulisses se prende ao mastro para não ser encantado pelo canto da sereia, também ali ninguem resiste à majestosa deusa, aos seus encantos. Segundo a lenda indígena, Iara exerce um imenso fascínio sobre os homens, deixando-os hipnotizados e impotentes. Para os ribeirinhos, tudo começa e termina no rio. É ali que encontram o refúgio do sol quente, o lazer para as tardes de domingo, o peixe para a alimentação da família.
Foram os índios saterê-mawé que descobriram a fruta que resume a identidade de Maués: o guaraná. No século 18, esses índios usavam a língua do peixe pirarucu – que depois de seca serve de lixa – para raspar o bastão do guaraná e extrair o pó. O refrigerante que conhecemos hoje é fabricado com as sementes de Maués. Dessa fruta faz-se também xarope, bala, suco e até um produto afrodisíaco, que o caboclo chama de “kit tesão”, e que é constituído de guaraná em pó, mirantã e catuaba, e, segundo os nativos, com satisfação garantida.
A cidade tem uma vasta programação festiva, quase toda ela em meados do ano. Em maio, há a Festa do Divino Espírito Santo, num evento que reúne barcos enfeitados no rio Maués-Açu para saudar o Divino. A festa tem um grande arraial e depois há a procissão dos devotos do Santo; em junho, é o aniversário da cidade e a comemoração tem feira gastronômica, torneios esportivos e uma gincana de 24 horas; em julho, há o Festival Folclórico da Ilha de Vera Cruz, cuja festa visa a estimular a preservação da cultura regional; em setembro, o Festival de Verão tem ampla programação cultural e turística no auge do período da vazante, quando as praias estão mais bonitas; em novembro realiza-se o mais importante dos festejos, a Festa do Guaraná, cujo auge é a apresentação da lenda do guaraná num palco montado na praia, com shows, torneios esportivos e feiras de produtos típicos da cidade. É a festa mais procurada pelos turistas e de longe a mais bela.
Os caboclos também têm sua história de amor para contar, e que não deixa nada a dever para Romeu e Julieta. Segundo a lenda nos diz, a índia saterê-mawé Cereçaporanga, de grandes olhos negros, se apaixonou por um guerreiro mundurucu, da tribo rival. Sabedores de que seu amor nunca seria aceito pelos pajés, os amantes resolveram fugir para bem longe, mas, os chefes das duas tribos descobrem e partem atrás dos jovens.
Na fuga começa a cair uma tempestade e Cereçaporanga e o guerreiro mundurucu – escondidos sob uma árvore no meio da floresta – são atingidos por um raio e morrem na hora. Quando os pagés chegam ao local encontram os jovens mortos e os saterê dão início ao ritual de enterro da bela jovem de olhos grandes e negros. Os mundurucus levam seu guerreiro e planejam uma grande batalha, que vem a se realizar mais tarde. No meio da luta , os pajés observam que algo está ocorrendo e se voltam para o túmulo onde Cereçaporanga está sepultada e verificam que lá há uma fruta vermelha com grande semente preta de forma redonda que, ao brotar, trazia de volta os lindos olhos negros da jovem índia. Era o guaraná, que vinha trazer a paz e matar a fome de toda tribo saterê. Essa é a história encenada nos festejos de novembro. Linda e desconhecida pela grande maioria.
Histórias magníficas como esta nos felicitam por saber que não precisamos importar as de fora, que nada nos falam.