meus escritos

Dar a conhecer à comunidade os textos de minha autoria, alguns publilcados em coluna semanal em jornal aqui da terra - Cruzieor/SP - ou partes de alguns de meus livros.

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Arquivo de: Novembro 2008, 08

08.11.08

MÃE DA RUA

Proliferam pela cidade, seja no centro ou na periferia, as lanchonetes e lan houses, com jovens ficando horas entretidos nos jogos eletrônicos oferecidos nesses estabelecimentos. Jogos de guerra, de lutas marciais e quejandos. Nossos jovens estão cada vez mais sedentários. Quase não os vemos correndo atrás de uma bola – até porque não temos tantos campos de futebol assim – ou com brincadeiras que lhes proporcione atividade física.
Folheando o Estadinho, de 12/02, vimos uma reportagem falando dessa diversão, que aprisiona a criança e os jovens diante daquela telinha terrível, com games de todas as espécies, mas em geral com cenas de extrema violência. A autora, Sílvia Campos, faz a pergunta: “Será que as brincadeiras simples foram superadas pelos games e pelos desenhos da TV a cabo?” Ainda temos crianças – Graças a Deus – que preferem as brincadeiras tradicionais, como pular amarelinha, girar bambolê, correr no pique-bandeira e outras mais.
Recordo-me – pronto, já vão chegar aqueles que me acusam de saudosista – das brincadeiras minhas preferidas. Jogar taco era uma delas. Com um movimento de carros bem abaixo do de hoje, óbvio, armávamos uma pista longa com casas feitas de gravetos, que são bem mais frágeis que uma lata e muito mais fáceis de serem derrubadas, um cabo de vassoura, ou com um pouco de sorte um bom sarrafo na carpintaria do Maluco – era assim que chamávamos o proprietário – e estava pronta a brincadeira. Ficávamos horas jogando. O pique-esconde também era muito divertido e com histórias interessantes, impublicáveis. Havia uma brincadeira que nunca me encheu os olhos: a tal de pé-de-lata ou a perna-de-pau. Aliás, nesta última, um acidente feio me afastou ainda mais dela. Gorrinho – já não me recordo seu nome – fez um par de pernas de pau com sarrafos e com o apoio dos pés fixos a uma distância aproximada de trinta centímetros do chão. Lá ia ele para lá e para cá, todo feliz, em suas pernas-de-pau, quando o suporte da perna direita se soltou ficando duas agudas pontas de pregos expostas, que lhe rasgaram a perna, onde levou mais de vinte pontos. Àquela época era difícil de se conseguir um carro, o ponto de táxi era distante e não se dispunha de telefones com a facilidade de hoje. Foi um sufoco para levarmos o Gorro para o Pronto-Socorro.
Jogar peladas com bolas de meia ou de borracha também ocupava nosso tempo. Correr atrás daquela coisa meio oval, pelos paralelepípedos, vez por outra nos brindava com imensos bifes, geralmente nos dedões. Mas, a recordação mais forte que tenho diz respeito a uma das brincadeiras que eu mais gostava, a “mãe da rua”. A coisa era simples. Um de nós ficava no meio da rua e era o pegador ou mãe da rua, e os demais tinham que atravessar a via pública pulando em uma só das pernas quando o pegador gritasse “Mãe da rua”. O apanhado seria o pegador. Embora aos gritos, era uma brincadeira inocente e divertida, desde que não fosse realizada às onze horas da noite, em uma época em que não havia televisão e todos, de um modo geral, dormiam cedo. E foi assim que certa feita quando bricávamos na rua Julio Conceição, no bairro em que nasci e me criei, em plena noite, que fomos surpreendidos por uma viatura da “rádio patrulha”, que viera para nos assustar. Haviam chamado a polícia para nos deter os folguedos. Assim que avistamos o carro policial nos debandamos para a “califórnia” ou “caldeirão do diabo”, como era conhecida a favela que havia na região e que conhecíamos como a palma de nossa mão. Adentramos por vielas inatingíveis pelos veículos, nos escondíamos na casa de um de nós, pois a maioria ali residia. Ficávamos na espreita dos passos dos “home” até que se retirassem. Era uma alegria só. Depois só nos restava gozar com a cara de quem os chamou, o que não fora difícil, pois conhecíamos a todos.
No colégio, se pudéssemos, dispensávamos as aulas de educação física, mas, não perdíamos uma só das oportunidades de gazetear aula e jogar bola nas areias da praia ou em um dos campos de futebol que então existiam lá pelos lados da rua Alexandre Martins, e eram muitos. Ali, hoje, há um imenso conjunto residencial e um magnífico Shopping Center.
A evolução, e o conseqüente progresso, derrubaram os ícones de nossos esforços. Corríamos muito, praticávamos esportes dos mais diversos. Éramos ativos. Hoje as diversões mais desejadas e concorridas travam a gurizada à frente de aparelhos eletrônicos. Uma pena.




NEOLOGISMOS

Às vezes paro a pensar de como é dinâmico nosso idioma. O surgimento de novas palavras é virtiginosamente rápido. Expressões que usava em meus tempos de jovem hoje já não se usam mais. Não que tenham desaparecido, não, mas se transformaram e se tornaram comuns e usadas por todos. Naqueles tempos eram usadas apenas pela molecadinha e não podiam ser ditas em qualquer lugar, só entre nós. Hoje são ditas em público, na sociedade e são transcritas pela mídia abertamente.
Sincopadas, na maioria, fazem hoje parte do vocabulário geral. Caraca – é uma dessas expressões, que se traduz por... bem, deixa pra lá; sifu – outra, que substitui um prejuizo ocorrido; quiospa – palavra esquisitíssima que é a forma mais reduzida de uma expressão e muitas outras que me fogem no momento.
Outras formas de expressão, porém, surgiram e são emblemáticas da pobreza de vocabulário de quem as usa. Valeu – falou – só – demorou – é isso aí - foi mal - fala sério, são usadas para respostas que deveriam ser dadas por frases. Essas dificuldades de conversação são típicas de falta de conhecimentos escolares. A insuficiência de vocabulários e de diálogos inteligentes é fruto de ensino deturpado, de professores desmotivados e/ou desprovidos tecnicamente. Não há interpretação de textos e não sabem o significado de palavras corriqueiras. É preocupante tudo isso, pois, podem chegar à Presidência da República.
No nosso dia-a-dia deparamos com conversações que, se prestarmos atenção, não iremos entender nada, nos sentiremos em outra galáxia. Palavreado chulo e aparententemente sem nexo que, no entanto, formam um dialeto do qual estamos alijados.
Por diversas vezes fui criticado, inclusive em casa, pelo uso que faço de certas expressões, para mim tão comuns, que não consigo conciliar as críticas com a realidade. Não me julgo por isso estar acima da média. A média é que é baixa.
Todas estas observações excluem, claro, os abusos que se faz de estrangeirismos como a um século atrás, quando o francês era o idioma mais falado e era “très chic” o uso de expressões naquele idioma. Hoje o inglês domina e existe uma linguagem específica que usa e abusa de seu uso. Há um samba, desconheço a autoria, gravado por Zeca Baleiro e por Zeca Pagodinho, que representa uma crítica muito inteligente a esse anglicismo. “Venha provar meu brunch/Olha que eu tenho approuch/Na hora do rush/Eu vou de ferry-boat”, e por aí vai.
Temos de ter o dissernimento daquilo que falamos. O uso da palavra certa, no momento certo, faz com que saibamos o que dizemos.
Nosso idoma é tão eclético, versátil e belo que o uso rigoroso do vernáculo pode fazê-lo também pernóstico. As palavras exprimem nossos pensamentos.
A palavra deve ser empregada com muito apuro, muito cuidado, pois nos remete aos píncaros do amor ou aos quintos dos infernos. A palavra lançada é como a oportunidade perdida e a flecha arremessada. Não tem volta.
A palavra honesta, aplicada com sinceridade, nos dá firmeza de entendimento.
A palavra de agradecimento a DEUS que nos vem do mais profundo de nosso íntimo, é alvura de nossos sentimentos.
As palavras de promessas políticas deveriam ser as de compromissos sérios, no entanto, soam-nos falsas e sem nenhum crédito.
As palavras ditas no calor da paixão e das juras de amor eterno devem ser o retrato de nossas intenções.
As palavras falsas nos remetem ao inferno do medo, do remorso, da desconfiança e nos acumplicia no desespero.
A palavra é a mais terrível e covarde arma que o homem inventou, no dizer de Paulo Coelho, pois é destruidora, e destroi sem deixar pistas.
A palavra é um copo pleno de fel na boca daqueles que se julgam portadores da voz de Deus, que mantêm afastados da religião seus fiéis.
Devemos, portanto, ter a responsabilidade com o que falamos e se o fizermos de maneira correta ficará, com certeza, muito mais bonito.