20.09.08
ILUSÃO
Quando se está viajando, retornando à sua cidade, como eu que estou há mais de trinta e dois anos fora, tem-se a esperança de encontrar os mesmos lugares que deixamos, encontrar os amigos e as pessoas conhecidas, rever as situações pelas quais passamos. Fui passar o dia das Mães com a minha velha mãe e lá cheguei na quinta-feira, com intuito de ficar pelo menos quatro dias na minha terra e a tudo rever e reviver. Desde que a condução ultrapassou as divisas do município, no largo e barrento rio Casqueiro, passando pela estação rodoviária, pelo túnel Rubens Ferreira Martins, pela Santa Casa, pelo campo da Portuguesa e seguir pela principal artéria desde o centro até a avenida que beira mar, cuidei de ficar atento na expectativa de ver se via alguém conhecido. Nada feito. Ao desembarcar, próximo a casa de meus pais, fui abordado por um casal da mesma faixa etária minha que queria a informação de como deveriam fazer para pegar aquela condução da qual eu descera, pois queriam ir para São Paulo. São de Vila Velha, no Espírito Santo, que, disseram, é muito bonita, mas estavam encantados com os jardins que acabavam de conhecer, pois não haviam visto, até então, nada parecido. Com justo envaidecimento expliquei-lhes que aqueles belos, bem cuidados e extensos jardins estavam inseridos no livro dos recordes, o Guiness, como o maior jardim do mundo. O encontro com meus pais, irmãos e sobrinhos foi festivo e de muita alegria. Saí várias vezes, fui a muitos lugares, como por exemplo, à Ponta da Praia, visitei o Museu de Pesca, muito bonito; o píer de atracação dos Práticos, de onde se parte em direção à praia da Pouca Farinha, ou melhor, de Nossa Senhora dos Navegantes, que era, na época em que lá vivia, uma pequena localidade com uma igrejinha e uma ou outra casa de pescador, e que hoje abriga muitas empresas do setor pesqueiro e de navegação; à ilha Porchat, com seus modernos e belos edifícios, local de morada de pessoas de alto poder aquisitivo, em cuja volta, pelas pedras, circulei, fazendo verdadeiros malabarismos; passei pela Ponte Pênsil, onde as artes que fazíamos eram do Arco da Velha; à Praia Grande, que me deixou abismado com o progresso, pela paisagem. Meu cunhado já me falara que a Praia Grande já passara Guarujá para trás, e eu não queria acreditar. Como Tomé, tive que ver para crer. Está realmente um espetáculo. Circulei pelo centro histórico, andei de bonde turístico e de tudo me encantei. Fui ao baile ao ar livre, na praça do Sapo, onde quem mais se diverte é o pessoal da Terceirona. A tudo atento, não visualizei ninguém que eu pudesse identificar, nem quando fui à feira livre com meu pai. Não passei por ninguém conhecido, e se passei não reconheci assim como não fui reconhecido. O tempo, inexorável, passou e as pessoas que conhecia envelheceram, eu envelheci, a cidade já não é a mesma, cresceu e mudou. E mudou para melhor. A esperança de reencontrar os mesmos lugares, as mesmas pessoas, já não é mais possível. Os amigos, eu sei, alguns já não estão mais entre nós, outros, como eu, vivem fora dali e até fora do país, não havendo, portanto, condições de se reviver o passado, a não ser com aquilo que nossa memória consegue trazer de volta, mas ela também nos trai, e nos sentimos tristes. A sensação de frustração e de tristeza por me sentir um estranho em minha própria terra se desvanecia a cada vez que chegava em casa e era recebido por minha velha mãe, autoritariamente carinhosa: ”Filho, como você demorou! Onde você estava?”