02.09.08
CULTURA INÚTIL. INÚTIL?
Às vezes me ponho a rememorar tempos que foram alegres, felizes. É bem verdade que nem todos os momentos de nossas vidas o são.
O mais interessante nesse meu raciocínio é que sempre que assim ajo retrocedo aos tempos em que vivi no Rio de Janeiro, pois foram, efetivamente, muito bons.
Pouco tempo após nossa chegada à aquela então cidade maravilhosa comprei um automóvel para os nossos deslocamentos e melhor aproveitamento de nossos passeios e conhecimento de lá. Meu possante era um modelo Besouro, ano 1969, da cor grená. Demos-lhe o sugestivo apelido de Chuleta. Ah, se aquele fusca falasse! Se ele falasse diria dos recantos que visitamos e das barbeiragens que fiz.
Sempre que possível falo aqui da insegurança atual e da violência que grassa e coloco na exemplificação dentro de casa o caminho para a solução desse mal. Com todos os meus dissabores e erros, por incrível que possa parecer, dei muita atenção aos meus filhos e hoje colhemos os magníficos frutos que eles representam. Em 1980, recebia eu um dos melhores salários do Brasil e não tinha portanto necessidade de colocar meu filho para trabalhar, mas ele estava se enturmando com uma galera nada recomendável e consegui para ele um emprego de office-boy em uma das maiores revendedoras de automóveis da cidade, em Laranjeiras. Lá foi ele, não muito satisfeito, fazer serviços externos sem conhecer muito da cidade. Sua insatisfação durou até o primeiro salário. Não tenho do que me arrepender. Hoje é importante funcionário de uma multi.
Muitos foram os passeios que reealizamos naquela linda cidade, e um deles, era na bela Quinta da Boa Vista, com seus caminhos, alamedas, o zoológico – o preferido pela garotada – o museu e as muitas brincadeiras que inventávamos, como escorregar pelas declives dos jardins sobre placas de papelão, soltar pipas ou correr atrás dos aviões de isopor, que eu lançava e as crianças corriam para buscar também passou a ser nossa referência de passeio. Sempre que podíamos e havendo concertos sinfônicos, lá estávamos. Concertos sinfônicos? Sim. E as minhas crianças sempre gostaram, assim como o imenso público que ali aportava. Meus filhos não se apegaram muito às músicas ditas eruditas, mas estão, graças a Deus, muito longe das músicas de hoje (música?).
Outro passeio muito interessante que fiz com os meus quatros filhos foi ao Museu da Chácara do Céu, da Fundação Castro Maia, no belo bairro de Santa Tereza. O segurança ou orientador seguia-nos à distância, pois era muito justo que houvesse atenção a quatro crianças, que a rigor são como macaquinhos soltos em loja de louças. Os pequenos se encantaram com a obrigatoriedade de uso de pantufas, a que chamavam de chinelões, visto serem usados sobre os calçados. À medida que seguíamos pelos corredores, eu ia mostrando aos pequenos os meus parcos conhecimentos – que o vulgo costuma chamar de cultura inútil – e isso me fazia muito feliz. Falava-lhes do artista predominante do local, o pintor paulista Cândido Portinari, amigo do proprietário. Indicava-lhes as obras fazendo comentários e recebia deles toda a atenção. Dizia-lhes eu da importância de suas obras, muitas expostas no exterior, na ONU, etc. Quando falei-lhes que Portinari era da cidade de Brodósque, elas riram, pelo inusitado do nome, e queriam saber onde ficava.
- Em São Paulo – respondi-lhes – Portinari era paulista como vocês.
Ao que a espoleta caçula brada:
- Como vocês, eu sou carioca.
A nossa passagem para última sala de exposições lembrou-me o lindo filme “O Jardim Encantado”, quando o filme, todo em preto e branco se torna colorido, pois quando os pequenos personagens o adentram assim acontece, visto o jardim ser encantado. Chamei eu a atenção dos petizes para observarem que naquela sala os quadros e desenhos expostos não tinham cores, eram em preto e branco. O oposto ao filme. Curiosos, quiseram saber o por que. Expliquei-lhes então que o artista adquirira grave doença pelo contato das tintas, que lhe envenaram o fígado, e que a partir daí passou a desenhar com crayon.
- E o que é crayon? – perguntaram.
- Crayon em francês quer dizer lápis, e esse lápis usado em desenhos é especial – respondi.
À distância, o orientador de visitas olhou-me e com um sutil sorriso e aceno positivo de cabeça aprovava minha aula para os filhos.
À saída o profissional nos cumprimentou e elogiou o comportamento das crianças e meus conhecimentos e didática.
Diz o vulgo que certas coisas representam uma cultura inútil, mas eu tive uma satisfação incomensurável ao ensinar meus filhos e ainda tenho, por ter esses conhecimentos em minha mente e poder relatá-los a vocês.