AS VOLTAS DA HISTORIA - 3
Quando Pero Álvares Cabral aqui aportou com sua esquadra encontrou uma população de mais de dois milhões de indivíduos, o dobro da população de Portugal. Os tupis, os habitantes daquelas terras baianas, dividiam-se em dezenas de grupos tribais que se subdividiam em aldeias, cada uma de 300 a 2 mil índios.
As riquezas da nova terra chamaram a atenção de outros povos que para cá se dirigiram com o intuito de invasão e roubo. É daí que começam as grandes lutas dos brasileiros, aliados aos portugueses ou aos invasores. Embora as guerras pelo domínio do território fossem entre franceses e portugueses, foram os índios, aliados de cada um dos povos, que se envolveram na batalha.
No período colonial foram muitas as revoltas e lutas do povo em defesa de seus direitos conspurcados. Guerras, como a dos Emboabas, dos Mascates e revoltas das mais diversas origens deu curso à História do povo brasileiro. Em 1720, Vila Rica (hoje Ouro Preto), era a principal cidade mineira e crescia em função do ouro e a mineração encontrava-se em plena atividade nas Minas Gerais. O ouro em pó circulava livremente como moeda, e o contrabando de ouro aumentava. Vendo seus lucros ameaçados, a Coroa portuguesa instituiu uma nova política fiscal. Proibiu a circulação do ouro, instalou postos de cobrança nas estradas que ligavam às minas e criou as Casas de Fundição. Os garimpeiros eram obrigados a levar suas pepitas para serem fundidas nessas casas e um quinto do peso da barra ficava para a Coroa como imposto – retido na fonte.
Sempre houve quem reclamasse e liderasse movimentos contra os exageros tributários. O pequeno comerciante Felipe dos Santos liderou os garimpeiros amotinados de Vila Rica exigindo o fim das atividades das Casas de Fundição. Acionadas, as tropas do Rio de Janeiro dispersaram os rebeldes. Santos foi preso, condenado à forca e esquartejado em praça pública. Na segunda metade do século XVIII, a produção de ouro em Minas Gerais entrou em declínio e a Capitania não conseguia mais pagar o imposto de 100 arrobas anuais (cerca de 1500 quilos) à Coroa. A carga tributária estava insuportável. O governo português instaurou então a “derrama”, em 1765. No dia da derrama os mineradores pagavam suas dívidas em ouro ou com quaisquer outros bens. Acompanhando o pensamento revolucionário europeu que pretendia o fim das monarquias absolutistas e das colônias, mais a independência dos Estados Unidos, fez com que a elite econômica mineira se mobilizasse, com São Paulo e Rio de Janeiro, num movimento de independência de Portugal.
Essa foi a primeira tentativa de libertação colonial que contava com o apoio de padres e mineradores e a participação dos poetas Cláudio Manoel da Costa e Tomás Antonio Gonzaga e do alferes Joaquim Jose da Silva Xavier, o Tiradentes.(*)
Entre os rebeldes estavam também o minerador Joaquim Silvério dos Reis e os oficiais Britto Malheiros e Correia Pamplona. Em troca do perdão de suas dívidas, em 1789, denunciaram ao governador das Minas Gerais, Visconde de Barbacena e apontaram os envolvidos da conspiração. A derrama foi suspensa e os culpados foram presos. Os poetas Cláudio Manoel da Costa – que acabou sendo suicidado - e Tomás Antonio Gonzaga, que negaram participação no movimento, foram condenados ao exílio e apenas Tiradentes foi condenado à forca e, a 21 de abril de 1792, executado, morto, esquartejado e exposto em público.
Pela contrariedade com a derrama, com a extorsão tributária e tantas outras arbitrariedades que as autoridades executavam, o brasileiro sempre se levantou, se rebelou e sentiu as conseqüências, suportando-as com valor, entregou até mesmo a própria vida em defesa de seus ideais.
Essa história de se atribuir ao brasileiro indolência é balela. O brasileiro tem tutano e galhardia. Adormecidos, é verdade, mas tem.