As voltas da História -2
Em 50 a C., Cícero, em carta a um amigo afirma: “...Entre toda essa discórdia eu vejo que Pompeu terá ao seu lado o Senado e os magistrados; todos os que vivem uma vida de medo, ou de pouca esperança, se unirão a César, pois seu exército é incomparável. Espero que tenhamos tempo de refletir sobre os recursos de cada um para escolhermos o nosso lado!” (Carta a Ático, VII, 6).
Tempo para reflexões, para análises de nossa situação, temos de sobra, mas nem sempre encontramos a verdadeira saída, ou, achamos que encontramos e no geral nos decepcionamos. Existem ameaças, sutis ou não, que sempre foram marcas desse meio sujo. “De Dionísio para Ápio, saudações. A fortuna de nossos mestres deu ordens para que as moedas italianas sejam desvalorizadas. Gaste, portanto, todo o dinheiro italiano que você tem, e compre para mim todos os produtos a qualquer preço... Mas eu lhe aviso que se tentar me enganar eu não o deixarei fugir. Rezo para que você tenha saúde, meu irmão”. (Papiro Ryland, 607, 300 d.C.)
É de se aguardar os resultados, pois, com certeza, as retaliações já estão a caminho. Teme-se que vítimas sejam apresentadas como algozes.
O povo brasileiro não é acomodado como nos parece nos dias de hoje. Quando sente seus direitos desrespeitados grita, esperneia e sai às ruas. Na campanha abolicionista, que foi a primeira grande mobilização popular, foi assim. O movimento repercutiu nas grandes cidades, onde não se dependia tanto da mão de obra escrava, e encontrou apoio para pressionar a monarquia a abolir o cativeiro em 1888.
Durante o governo de Getulio Vargas, o povo chegou a pegar em armas, e na Revolução de 1930 teve o apoio das multidões urbanas afetadas pela grave crise econômica que o país atravessava com a queda do preço de café no mercado externo, com a crise recessiva de 1929, com o crack da Bolsa de Nova Iorque. Em 1932, a elite paulista incentivou o povo a pegar em armas contra o ditador Vargas, mas o povo paulista se viu derrotado.
Em 1942, o povo voltou a sair às ruas para exigir a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial, após os ataques nazistas a navios brasileiros e, em 1954, quando Getulio se suicidou, para chorar-lhe a morte.
Houve grandes movimentações populares na fase pré-golpe militar – as Marchas da Família com Deus pela Liberdade - quando se exigia a saída de Goulart, que se aproximara dos setores da esquerda. Entrou-se, então, num período negro de nossa história, quando fomos cerceados de quase tudo, menos respirar. Tudo era proibido, tudo era vigiado. Mesmo proibidas, as manifestações levaram estudantes, intelectuais e artistas às ruas contra a revolução, ou, golpe militar. Em janeiro de 1983, o deputado federal Dante de Oliveira, apresentou uma emenda à Constituição restabelecendo as eleições diretas para presidente. Em 1984, foram grandes as manifestações populares quando milhões de pessoas saíram às ruas pedindo eleições diretas para presidente. Em 1985, o mineiro Tancredo Neves foi eleito indiretamente pelo Congresso Nacional para ser o primeiro civil na presidência após o golpe militar de 64, mas, não quis o destino que ele assumisse, pois, acometido de grave enfermidade, faleceu a 21 de abril daquele ano, assumindo o vice José Sarney.
O povo conhece perfeitamente a força que tem, embora nos pareça por vezes adormecida. Diante da desastrada administração de Sarney, que levou a inflação a mais de 85% ao mês, pelo discurso altivo e pelas promessas de acabar com os marajás que imperavam, o candidato Fernando Collor de Melo acabou sendo o primeiro presidente eleito diretamente na pós-revolução. Viu-se entretanto envolto em uma série de denúncias, de desfalques, corrupção, tráfico de influências que abalou a credibilidade de seu governo. Sindicatos, políticos, associações civis, entidades de classes uniram-se e foram às ruas, em 1992, exigindo seu impeachment. Os alunos secundaristas se destacaram nessa campanha, pois se mobilizaram, com os rostos pintados e com muito bom humor, juntando-se aos demais manifestantes e ficaram conhecidos como caras pintadas. Ao perceber que seria destituído, Collor entregou sua carta-renúncia em 29 de dezembro de 1992. Assumiu seu vice, Itamar Franco, que completou seu mandato.