meus escritos

Dar a conhecer à comunidade os textos de minha autoria, alguns publilcados em coluna semanal em jornal aqui da terra - Cruzieor/SP - ou partes de alguns de meus livros.

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Terra Blog

Arquivo de: Agosto 2008, 21

21.08.08

Até quando?

Uma das coisas que mais devemos tomar cuidado na vida é com nossa postura diante do mundo e dos outros. O que falamos, o que fazemos, o que, de uma forma ou de outra, induzimos a que nos sigam, são atos de uma importância que muitas das vezes não nos damos conta. Eu aqui, os demais colunistas em seus artigos, os repórteres de rádio ou televisão, os palestristas e os que se manifestam em seus púlpitos, formadores de opinião e, portanto, com responsabilidade de cuidar do que falam.
O equilíbrio entre o que é dito e o que se faz tem o significativo nome de ética.
Ética é tudo aquilo que a gente faz quando ninguém está vendo, quando se está sozinho com consciência e os compromissos que se assume consigo mesmo.
Muitas vezes nos surpreendemos em alguma coisa não correta, por vezes tão sutíl que não nos damos conta. É como um dito popular: “O hábito do cachimbo faz a boca torta”. E é aí que mora o perigo com que temos de nos atinar.
A vivência na ética também significa respeito ao outro, ao modo de vida coletiva, participação do bem estar próprio e daqueles com quem vivemos. Os seres humanos têm compromissos uns com os outros. Somos todos conectados a todos. Somos unos.
Existem, entretanto, preceitos que fazem parte de uma pessoa e que não o fazem em outra. É a chamada ética pessoal à qual nenhuma lei pode regular. O foro íntimo de cada um deve ser respeitado, embora não se concorde com ele.
Li certa feita uma crônica em que o autor cita como exemplo um diálogo curto entre o pintor renascentista Michelângelo e o papa de plantão. O artista trabalhava num canto da pintura do teto da Capela Sistina, e o papa o observou que não precisaria tanto esmêro, pois dificilmente poderia alguém ver, ao que teria respondido: “Mas eu posso”. A isso se dá o nome de conduta ética, pois representava o compromisso que ele tinha com sua arte, com a humanidade e consigo mesmo e não com a vontade de um chefe político.
A maior problemática que enfrentamos, no momento, é exatamente essa. Não está havendo coerência ou atitudes condizentes com o respeito à nação, com o povo, com as coisas públicas. Fala-se muito sobre uma determinada coisa e se faz outra, agride-se o português sem nenhuma cerimônia, acobertam-se falcatruas das mais nojentas, eximem-se responsabilidades sob o pretexto insano de que de nada se sabia e as coisas estão sendo levadas em banho-maria, nada acontecendo, a não ser jogar em cima dos outros os erros que se comete. Por falar em banho-maria me vem à lembrança a história do sapo de Einstein. Lembram-se. Está faltando ao brasileiro a coragem necessária para a indignação e para a revolta com tudo isso que está aí.
É chegada a hora de tomarmos uma decisão. Que essa decisão não seja errada como foi da última vez e que tudo não apenas se repita e sim se reforce. E tudo se agravará.
Até quando?








As voltas da História -2


Em 50 a C., Cícero, em carta a um amigo afirma: “...Entre toda essa discórdia eu vejo que Pompeu terá ao seu lado o Senado e os magistrados; todos os que vivem uma vida de medo, ou de pouca esperança, se unirão a César, pois seu exército é incomparável. Espero que tenhamos tempo de refletir sobre os recursos de cada um para escolhermos o nosso lado!” (Carta a Ático, VII, 6).
Tempo para reflexões, para análises de nossa situação, temos de sobra, mas nem sempre encontramos a verdadeira saída, ou, achamos que encontramos e no geral nos decepcionamos. Existem ameaças, sutis ou não, que sempre foram marcas desse meio sujo. “De Dionísio para Ápio, saudações. A fortuna de nossos mestres deu ordens para que as moedas italianas sejam desvalorizadas. Gaste, portanto, todo o dinheiro italiano que você tem, e compre para mim todos os produtos a qualquer preço... Mas eu lhe aviso que se tentar me enganar eu não o deixarei fugir. Rezo para que você tenha saúde, meu irmão”. (Papiro Ryland, 607, 300 d.C.)
É de se aguardar os resultados, pois, com certeza, as retaliações já estão a caminho. Teme-se que vítimas sejam apresentadas como algozes.
O povo brasileiro não é acomodado como nos parece nos dias de hoje. Quando sente seus direitos desrespeitados grita, esperneia e sai às ruas. Na campanha abolicionista, que foi a primeira grande mobilização popular, foi assim. O movimento repercutiu nas grandes cidades, onde não se dependia tanto da mão de obra escrava, e encontrou apoio para pressionar a monarquia a abolir o cativeiro em 1888.
Durante o governo de Getulio Vargas, o povo chegou a pegar em armas, e na Revolução de 1930 teve o apoio das multidões urbanas afetadas pela grave crise econômica que o país atravessava com a queda do preço de café no mercado externo, com a crise recessiva de 1929, com o crack da Bolsa de Nova Iorque. Em 1932, a elite paulista incentivou o povo a pegar em armas contra o ditador Vargas, mas o povo paulista se viu derrotado.
Em 1942, o povo voltou a sair às ruas para exigir a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial, após os ataques nazistas a navios brasileiros e, em 1954, quando Getulio se suicidou, para chorar-lhe a morte.
Houve grandes movimentações populares na fase pré-golpe militar – as Marchas da Família com Deus pela Liberdade - quando se exigia a saída de Goulart, que se aproximara dos setores da esquerda. Entrou-se, então, num período negro de nossa história, quando fomos cerceados de quase tudo, menos respirar. Tudo era proibido, tudo era vigiado. Mesmo proibidas, as manifestações levaram estudantes, intelectuais e artistas às ruas contra a revolução, ou, golpe militar. Em janeiro de 1983, o deputado federal Dante de Oliveira, apresentou uma emenda à Constituição restabelecendo as eleições diretas para presidente. Em 1984, foram grandes as manifestações populares quando milhões de pessoas saíram às ruas pedindo eleições diretas para presidente. Em 1985, o mineiro Tancredo Neves foi eleito indiretamente pelo Congresso Nacional para ser o primeiro civil na presidência após o golpe militar de 64, mas, não quis o destino que ele assumisse, pois, acometido de grave enfermidade, faleceu a 21 de abril daquele ano, assumindo o vice José Sarney.
O povo conhece perfeitamente a força que tem, embora nos pareça por vezes adormecida. Diante da desastrada administração de Sarney, que levou a inflação a mais de 85% ao mês, pelo discurso altivo e pelas promessas de acabar com os marajás que imperavam, o candidato Fernando Collor de Melo acabou sendo o primeiro presidente eleito diretamente na pós-revolução. Viu-se entretanto envolto em uma série de denúncias, de desfalques, corrupção, tráfico de influências que abalou a credibilidade de seu governo. Sindicatos, políticos, associações civis, entidades de classes uniram-se e foram às ruas, em 1992, exigindo seu impeachment. Os alunos secundaristas se destacaram nessa campanha, pois se mobilizaram, com os rostos pintados e com muito bom humor, juntando-se aos demais manifestantes e ficaram conhecidos como caras pintadas. Ao perceber que seria destituído, Collor entregou sua carta-renúncia em 29 de dezembro de 1992. Assumiu seu vice, Itamar Franco, que completou seu mandato.