16.07.08
TIAMURU
É enorme o número de amigos e pessoas que me cobram a origem desse pseudônimo. A todos respondo que, sendo neto direto de bugre, ou seja, de índio da etnia guarani, visto meu avô do lado materno ter sido dessa raça, tenho muito gosto por historias desses nossos ancestrais.
A história do índio brasileiro já nos foi contada das mais variadas formas, seja na carta de Caminha, nos desenhos de Rugendas, nos romances de José de Alencar ou na música de Egberto Gismonti. O índio brasileiro ajudou a construir a identidade de nosso povo, deixando-nos de herança as manifestações artísticas, a culinária, a medicina popular, a agricultura, os hábitos do dia-a-dia, como o banho freqüente. Você sabia que o banho diário é um costume indígena?
Em nossos mais de 500 anos de história, eles foram relegados a um segundo plano no contexto social, mas, sobreviveram a todos os descasos. Devido a programas assistenciais de relativo sucesso, houve real crescimento populacional.
A lei 9836/99 criou a Política de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas, no entanto, o branco se perde no entendimento dos hábitos do índio. A antropóloga Clarice Mota conta uma pequena história: “Certa ocasião uma índia em trabalho de parto emitia sons que preocupavam toda a equipe de saúde. Perguntavam-lhe se estava bem. Ela dizia que sim, mas não parava de emitir aquele som. Parecia um lamento de dor. Até que uma médica aproximou-se e perguntou o significado dos gritos, e ela respondeu: “Na minha aldeia, todos cantam quando uma criança vai nascer. Se não cantarmos, ela não será bem recebida no mundo. Aqui, como eu estou sozinha, eu mesma tenho que cantar para receber meu filho.” O respeito às tradições e peculiaridades dos índios, seja nos consultórios, postos de saúde ou nos hospitais, é de suprema importância. Essa sensibilidade faltou ao colonizador.
Em 1963, os índios cintas-largas foram assassinados em massa por pistoleiros e de 5000 sobraram 1300 índios. O massacre do Paralelo 11, como ficou conhecido, foi a primeira denúncia contra o Brasil de repercussão internacional. Os mandantes nunca foram presos, testemunhas e denunciantes foram mortos ou enlouqueceram em sanatórios, e os motivos por trás das mortes eram os interesses econômicos das mineradoras. Se à época do achamento a cobiça se chamava pau-brasil, com o passar do tempo foi se modificando e nessa etapa eram as mineradoras.
Vamos à problemática da expansão demográfica, pois na década de 70 os waimiri-atroari contabilizavam 1.500 indivíduos e em 1987 eram apenas 387. Doentes, dispersos pela periferia da civilização branca, sem identidade e com a auto-estima em frangalhos, os índios estavam à beira da destruição e do desaparecimento como nação. O sertanista José Porfírio de Carvalho, que quase fora eliminado por eles, iniciou o Programa Waimiri Atroari para ressuscitar a tribo, devolver-lhe o amor-próprio e a identidade. E foi graças a esse trabalho de Tiamuru – “O Velho”, no idioma waimiri atroari – como Porfírio é conhecido pelos índios (de onde tirei para mim o apelido esperando que o sertanista não se aborreça), que eles sobreviveram, tirados do caminho da extinção e os transformou numa nação altiva. O destino desses índios era morrer ou ser absorvido pela cultura dominante, não fosse o PWA – Programa Waimiri Atroari. O trabalho de Porfírio garantiu não só a multiplicação dos waimiri como os colocou no caminho da independência econômica, cultural e social. “Para os índios, independência significa viver sem as necessidades criadas pelos civilizados”, explica o sertanista.
Essa independência, do ponto de vista econômico, veio através de um contrato de 25 anos entre a Eletronorte e os índios: a título de indenização pelas terras indígenas inundadas na construção da usina hidrelétrica de Balbina, no rio Uatumã, nos anos 70, a empresa se compromete a financiar ações para preservar o povo waimiri atroari. Esse acordo termina em 2013, e em vez de usar o dinheiro recebido – cerca de 1,5 milhão de reais ao ano, em valores de hoje – na compra de camionetes importadas, televisores coloridos e outros espelhinhos do gênero, como fizeram outras nações indígenas, os waimiri atroari desenvolvem um programa para recuperar a própria independência, evitando o consumo supérfluo e também por uma questão ideológica, não tem televisão nas dezenove aldeias waimiri atroari, mas, tem equipamentos tecnológicos de ponta, como o GPS, que os ajuda nas caminhadas nas florestas e nos deslocamentos pelos rios.
Na cultura indígena não há o conceito de propriedade e tudo é coletivo, o que ajuda a barrar a entrada de supérfluos nas aldeias de forma natural e lógica. A comida é coletiva, a produção é coletiva, a habitação é coletiva, não fazendo, portanto, nenhum sentido um índio sair comprando penduricalhos para sua própria satisfação.
E nós é que somos civilizados.