21.06.08
Quero o mundo doente
É incrível, mas em pleno século XXI vemos ainda as diferenciações que certos elementos fazem em relação aos outros.
Acham-se superiores e se emperdigam por causa de seu sobrenome, sua classe social, cor da pele, condição econômica, formação intelectual ou escolar.
Comigo mesmo já ocorreu de ser diferenciado quando fui questionado por uma senhora durante uma conversação, que ao olhar-me de cima para baixo, com o nariz empinado, perguntou: “Qual o seu nome de família?” Ao que orgulhosamente respondi: “Silva. Da Silva”. Ela deu um muxoxo, rodou nos calcanhares e se foi. Não lhe guardei sequer a fisionomia.
Há uma coisa que esse tipo de pessoa não leva em consideração: a dignidade humana. E o que vem a ser essa tal de dignidade humana? Bem, ela se caracteriza em vermos no outro uma pessoa, ou seja, um ser que merece tanto respeito quanto nos achamos merecedores. É ver o outro como gente e não como uma “coisa”, se o respeitamos, temos-lhe consideração e o vemos com sua individualidade e direitos e sentimentos. Se for mais importante o sobrenome, a conta bancária e uma suposta tradição na cidade, então a outra pessoa será apenas uma “coisa”, da qual nos servimos para nos satisfazer de alguma forma e depois a descartamos.
Hoje em dia a “coisificaçao” do ser humano é mais comum do que podemos imaginar.
Costuma-se achar que os seres humanos podem ser classificados pelos mais ignóbeis modelos que faz com que ignoremos os ensinamentos: “não faças aos outros o que não quiseres que lhe façam”.
Julgar o outro em função da cor da pele, achando-o inferior por isso, é de uma ignorância inconcebível. E com as tais cotas raciais para o acesso às Universidades se está reavivando os preconceitos de antanho. A melhoria das condições do ensino na escola pública nos mostrará o quanto essa atitude é discriminatória.
Mas, e esse titulo esquisito, o que significa?
Existe uma anomalia de diminuição de genes no sétimo cromossomo, rara desordem chamada síndrome de Willians, que predispõe o individuo ao desejo de se conectar, mas também a ter doença cardiovascular, desembaraço verbal, um leve retardamento mental e extrema empatia.
As pessoas acometidas dessa síndrome são altamente simpáticas e fazem amizades com a maior facilidade, não se importando com caras fechadas e feias. São propensas a se relacionarem com qualquer pessoa, ainda que inicialmente estranhas. Os pesquisadores chamam esse exuberante gregarismo de “hipersensibilidade”. O principal processador cerebral do medo dessas pessoas, a amígdala, que na maioria de nós mostra uma maior atividade quando vemos rostos zangados ou preocupados, não exibe qualquer reação quando elas se deparam com tais expressões. É como se elas vissem todos os rostos como amistosos.
Certa vez, um adulto portador dessa síndrome disse que adorava ler ficção. “Porque eu consigo me colocar naquele livro e ficar ali dentro com as personagens, sentindo na minha pele como eles passam por aquelas experiências”, disse.
Como o maior objetivo nosso é compreender um ao outro e formar alianças é nosso maior desafio evolutivo, vemos que as consideradas pessoas “diferentes” podem ensinar muito a nós, “normais”.
Precisamos aprender a nos entender, a nos respeitar e a nos amar para podermos ter paz e lutarmos para resgatar a dignidade humana em qualquer nível de vivência que tenhamos.