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Dar a conhecer à comunidade os textos de minha autoria, alguns publilcados em coluna semanal em jornal aqui da terra - Cruzieor/SP - ou partes de alguns de meus livros.

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Terra Blog

Arquivo de: Junho 2008, 14

14.06.08

GAIJIN


Em meados do século XIX, mais precisamente em 1868, o povo japonês e seu governo defrontavam-se com um duro e longo período de transição, pois passavam do feudalismo para o regime capitalista.
Modificar um sistema milenar era realmente coisa difícil de se defrontar. O governo japonês resolveu incentivar a emigração como uma das fórmulas de solução. Vários milhares de nipônicos partem então para outras plagas e partem para a Austrália, os Estados Unidos, o México e o Peru, mas não deu certo, pois a maioria acabou voltando. Tantos foram os japoneses que entraram nos Estados Unidos que, em 1908, essas entradas foram proibidas.
Nesta semana que se inicia, no dia 18, celebra-se o centenário da primeira leva de imigrantes japoneses, que aportaram no cais do armazém 14, em Santos, a bordo do Kasato Maru. Eram 158 famílias – 785 pessoas.
Nosso território, imenso, carecia de mão de obra e foram esses imigrantes designados para as fazendas de café, mas terminaram na olericultura, onde ainda hoje batalham, formando, pelo menos em São Paulo, o grande cinturão verde que a sustenta, onde fizeram experiências com as mais variadas verduras e hoje, por isso, desfrutamos de uma qualidade e variedade inigualáveis.
O chamado cinturão verde de São Paulo abriga uma das maiores concentrações de nipodescendentes do país. Desiludidos com o plantio de café no oeste do estado, que rendia bem menos do que lhes prometeram, alguns imigrantes acabaram se estabelecendo ao redor da capital para cultivar verduras, legumes e, mais tarde, frutas, como forma de atender o consumo próprio e a demanda crescente na metrópole.
Na década de 1920 chega por aqui, entre milhares de outros, uma jovem, cujo nome era Yassoko Takahashi, a quem carinhosamente chamávamos de “tia Catarina”. Tinha ela consigo todo o carinho de uma família enorme. Por uma ironia sem tamanho ela morreu atropelada por uma moto Honda. Tenho muita saudade dela e de seu falar quase ininteligível, embora já estivesse por aqui há mais sessenta anos. Seus filhos, netos e bisnetos – meus tios e primos – moram na cidade de São Paulo. Tia Catarina era uma imigrante urbana.
Momentos cruciais para a colônia japonesa aconteceram durante a Segunda Guerra Mundial, quando o governo brasileiro decretou guerra ao Japão (agosto de 1942). Com seus bens confiscados e confinados no interior, proibidos de ensinar o idioma japonês, as centenas de nipocomunidades foram submetidas a um silêncio que até hoje apresenta seus efeitos na historia da imigração no Brasil. As relações diplomáticas entre o Japão e o Brasil só foram restabelecidas no inicio dos anos 1950. Durante esses anos havia uma revolta surda, pois era perigoso torcer pelo próprio país. Todo cuidado era pouco na vivência não só com os “inimigos”, mas principalmente com os compatriotas inconformados com a derrota japonesa na guerra. Foram muitos os dissabores e muitas as feridas causadas, feridas essas que demoraram muito para fechar.
O governo japonês, ao comprar vastas extensões de terras e distribuí-las para sua gente, promoveu uma reforma agrária, não lá, mas aqui no Brasil, principalmente nos estados do Paraná e São Paulo, locais onde era e é maior a concentração de nipodescendentes.
A guerra, porém, não os afastou de suas culturas. Quando as reuniões e a língua estavam proibidas, escolas clandestinas funcionavam em fundos de quintal, pois, segundo um imigrante, uma importante forma de manter a cultura eram as escolas, pois ali além do japonês, tinham gincanas, teatro, festas.
Assim como no inicio o grande fluxo migratório era no sentido da Ásia para cá, nos últimos vinte anos ele se inverteu, quando descendentes de nipônicos para lá partiram a procura de trabalho, que se tornava tão escasso por aqui – os dekasseguis.
Hoje vivemos dentro de uma normalidade incrível, com companheiros e amigos dos quais muitas das vezes não entendemos ou conseguimos falar-lhes o nome. Mas que são tão brasileiros como nós.
Que bom!