10.05.08
AMOR DE MÃE
No radinho sobre a pequena prateleira, fazendo companhia para os sabões em pó e outras quinquilharias, o funk era o som preferido. As letras, tão suas conhecidas, eram acompanhadas em uma ou outra música. O lesco-lesco nas roupas alheias faz parte da renda daquela família pobre, carente. Cecília, ou Ciça como era mais conhecida, se dedicava com ardor às suas tarefas como forma de terapia para amenizar suas múltiplas preocupações. Preocupações estas que variam das necessidades básicas aos compromissos assumidos.
No momento está batalhando as roupas da casa de dona Anita, que não só paga bem como também cede quase sempre vestimentas quase novas e que fazem a alegria de todos. Quando Robson apresentou sérios problemas de saúde, dona Anita e seu Cláudio se desdobraram e atenderam seu menino nos melhores hospitais e com todos os medicamentos necessários. Todo esmero no atendimento dessas pessoas é o mínimo que ela pode fazer.
Arnaldo, o marido, há algum tempo vinha apresentando problemas de coluna, pois, sendo servente de uma fábrica do outro lado da cidade, ganhava pouco e batalhava muito. Havia de ter complementação da renda da casa e, porisso, ela lavava e passava roupa para fora; a filha Daniela é secretária e tem um salário razoável, mas, com data de casamento marcada preparar sua casa é primordial, mas, sempre que pode ajuda, e bastante. Robson, o caçula, é aplicado em seus estudos e cursa a 8a. série, à noite, e tem o sonho de se formar em Mecatrônica, mas, sempre que lhe sobra algum tempo faz biscates como burro sem rabo no centro da cidade. Entretanto o mais velho, Naldinho, sempre fora problemático. Arruaceiro, juntara-se à comunidade de marginais e, com o tempo, tornara-se também um deles.
Naldinho era perverso, malvado mesmo, pois não abria mão de nenhuma vítima. A todas ele tripudiava, maltratava, torturava. Carregava consigo, nas costas, vários assaltos, outro tanto número de assassinatos e, todos, com características de crueldade. Sua condenação fora certa e a pena alta necessária. A penitenciária em que se encontra é tida como de segurança máxima.
Ciça se desencubia de suas tarefas, cantarolando e sorrindo. Acompanhava o ritmo das músicas balançando as ancas. De repente a reportagem interrompe a programação com estas informações: “Notícias chegadas de Aparecida nos indicam que violento motim no presídio de Potim está em andamento. Os presos amotinados reclamam da superlotação da penitenciária. A situação é extremamente tensa e há várias vítimas”. Ciça soltou um grito de angústia.
-Meu menino, meu Deus, como estará?
Apressou-se para o quarto a fim de trocar de roupas e ir imediatamente até o presídio. Teria que saber ao vivo como estaria seu menino. Chorava copiosamente enquanto se vestia e procurava em seus pertences dinheiro para as passagens de ida e de volta.
Daniela e o namorado, Tonho tentavam, em vão, acalmá-la. Faziam o maior dos esforços, mas não conseguiam demovê-la.
-Calma, pede-lhe Tonho.
-Porque calma. O filho que está lá em perigo é meu e não seu.
-Mas, estou tentando ajudá-la.
-É, então me empresta dez real para a passagem que depois devolvo.
Tonho tirou da carteira uma nota de dez reais e colocou na mão da futura sogra. Ciça apanhou a nota e partiu sem se despedir.
Na condução tentou não demonstrar seu nervosismo. Não era ela a única com aquele destino. Todos falavam muito e comentavam os acontecimentos, o que muito a irritava.
A baldeação em Aparecida e o novo ônibus, este urbano, a deixavam ainda mais nervosa. Não conseguia mais aparentar tranquilidade, pois realmente não tinha.
Desceu em frente à prisão onde o movimento de pessoas era grande. Sua angústia se tornou maior. Todos queriam notícias de seus entes e falavam, todos, ao mesmo tempo. Um dos amotinados, no teto do prédio, tinha coisas nas mãos e gesticulava com violência. Ao lado de Ciça uma mulher com um binóculo, aterrorizada, baixou a guarda e murmurou:
-Que coisa horrorosa!
Ciça nem pediu. Tomou as lentes das mãos da mulher e as posicionou diante dos olhos. Focalizou aquela imagem no telhado e, também com horror, viu que na mão direita havia a cabeça de um homem. Fixou a imagem ali. Não, não era seu menino. Percorreu, então, a imagem para a direita, pelo corpo do detento encapuzado e chegou à mão esquerda, que empunhava um facão artesanal e viu que a mesma não apresentava a ponta do dedo mindinho e um pouco acima do pulso, no antebraço, a tatuagem de uma feroz pantera. Abaixou o braço, entregou automaticamente o binóculo para a mulher e murmurou:
-Meu menino está vivo, Graças a Deus!