meus escritos

Dar a conhecer à comunidade os textos de minha autoria, alguns publilcados em coluna semanal em jornal aqui da terra - Cruzieor/SP - ou partes de alguns de meus livros.

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Arquivo de: 2008

07.12.08

Pela metade

Metade de mim é feliz

tricolor é campeão

a outra metade me diz

Vasco na segunda divisão.

VIDAS CONEXAS

Todos nós estamos o tempo todo no meio de incrível bombardeio. Não falamos de bombardeios irracionais e destrutivos, desses que habitam os cérebros doentios e espíritos malévolos de presidentes, ditadores e terroristas (é tudo igual), mas, pela luz e muitas outras partículas de alta energia, os raios cósmicos. Essas partículas colidem com o ar e criam mais partículas, e nós no meio da dança cósmica de criação de destruição. O tempo todo. Há, portanto, uma contínua mutação física, renovadora, tal como nosso organismo. Nosso pâncreas substitui a maior parte de suas células a cada 24 horas. Ou seja, acordamos com um pâncreas novo a cada dia, assim como uma nova mucosa gástrica. Nossa pele descama à razão de milhares de células por minuto e a maior parte do pó de nossas casas é só pele morta. As células mortas se vão e são imediatamente substituídas, em igual número, por outras que formam a nova pele. Assim também a vida se renova. As células são trocadas, mas o padrão de nossa organização permanece o mesmo e esta é uma das características mais importantes da vida: mudança estrutural contínua com estabilidade dos padrões do sistema. É a autotranscendência e a auto-organização, que não consiste apenas nos seres vivos se manterem e se renovarem constantemente. Significa que também tem uma tendência a se transcenderem, a se estenderem e a criarem novas formas. A dinâmica evolutiva básica da vida não é a adaptação e sim a criatividade, e esta é o elemento básico da evolução. Todo organismo vivo tem potencial para a criatividade, para surpreender a se transcender. A evolução é uma dança em progresso, uma conversa em progresso. “Não evoluimos no planeta, evoluimos com o planeta”.
Temos que pensar em processos que nos induzam a melhorias que abranjam nossos filhos e netos e de seus filhos e netos. Enquanto continuarmos a ver as coisas pela velha óptica patriarcal deixaremos de ver o mundo como ele realmente é. Nós precisamos de uma visão do mundo e de uma ciência mais abrangente para nos apoiar. A Teoria dos Sistemas, dos Sistemas Vivos, que nos é ensinada por Fritjof Capra, líder ecologista, austríaco ambientado nos EE.UU, em seu livro “O Ponto de Mutação”, de 1982, é fundamento para este trabalho. Capra nos diz, ainda, da interdependência desses seres vivos. Nos dá o exemplo da árvore, que não sobrevive sozinha. Para tirar água do solo ela precisa dos fungos que crescem na raiz. O fungo precisa da raiz e esta do fungo. Se um morrer, o outro também morre. Há milhões de relações como esta no mundo, cada uma envolvendo uma interdependência.
O psiquiatra Howard C. Cutler, co-autor da obra “A Arte da Felicidade – Um manual para a Vida”, junto com Sua Santidade o Dalai Lama, e que fazia parte da assistência em uma conferência, diz que sempre se considerou uma pessoa independente, segura de si e que na realidade se orgulhava de possuir essa qualidade e que em segredo tinha a tendência a considerar pessoas excessivamente dependentes com uma espécie de desprezo – um sinal de fraqueza, e afirma: “Em dado momento, me descobri distraído, puxando um fio solto da manga da minha camisa. Prestando a atenção por um instante, ouvi quando ele (o Dalai) mencionou o grande número de pessoas envolvidas na confecção de todos os nossos bens materiais. Enquanto ele falava, comecei a pensar em quantas pessoas estariam envolvidas na feitura de minha camisa. Comecei imaginando o lavrador que plantou o algodão. Depois, o vendedor que vendeu ao lavrador o trator para arar a terra. Em seguida, por sinal, as centenas ou milhares de pessoas envolvidas na fabricação do trator, entre elas, incluídas as que extraíram o minério para fabricar o metal de cada peça do trator. E todos os projetistas do trator. E então, naturalmente, pensei nas pessoas que processaram o algodão, que teceram o pano e que cortaram, tingiram e costuraram esse tecido. Os ajudantes de carga e motoristas que fizeram a entrega à loja e o vendedor que me vendeu a camisa. Ocorreu-me que praticamente todos os aspectos da minha vida resultaram de esforços dos outros. A preciosa confiança que eu tinha em mim mesmo era uma total ilusão, uma fantasia. Fui então dominado por uma profunda noção da interdependência e da interligação de todos os seres.“
A Teoria dos Sistemas reconhece esta teia de relações como a essência de todas as coisas vivas. A dependência comum a todos nós é um fato científico, é uma teia de relações: é a própria teia da vida. A Teoria dos Sistemas dá o perfil de uma resposta àquela eterna questão: o que é a vida?
A essência da vida é a auto-organização. Um sistema vivo, embora dependa do ambiente, não é determinado por ele. Um sistema vivo se mantem e se transcende sozinho.
Existem dois grandes princípios em todo ser vivo: o masculino, que é dominador, agressivo, e o feminino, que é nutriente, gentil. Esses dois princípios eram, a princípio, equilibrados, mas, o homem criou ferramentas e armas físicas e intelectuais e desequilibrou tudo completamente. Foram dadas ferramentas mecanicistas e belicistas a pessoas com sede de poder e dominação.







06.12.08

DEPOIMENTO DE UMA EX-DROGADA

Tudo começou muito cedo. Eu tinha uns 14 anos e um amigo chegou com aquele papo de 'experimenta, depois quando quiser é só parar'... e eu fui na dele. Impressionante, marquei a maior bobeira. Primeiro, ele ofereceu coisa leve, que não me preocupasse, disse que era 'de raiz', da terra, que não fazia mal e me deu um inofensivo disco do Chitãozinho e Xororó, seguido de um DVD do Calcinha Preta. Legal. Achei uma coisa muito legal, uma coisa bem brasileira. Mas a parada foi ficando mais pesada, o consumo cada vez mais freqüente. Comecei a chamar todo mundo de truta e acabei comprando pela primeira vez. Lembro que cheguei na loja e pedi: - 'me dá um CD do Zezé de Camargo e Luciano'! Era o princípio de tudo. E a coisa desandou. Logo depois resolvi experimentar algo diferente e ele me ofereceu um cd de Axé. Dizia que era para relaxar, sabe, coisa leve...Banda Eva, Cheiro de Amor, Netinho, Aviões do Forró, etc. Com o tempo meu amigo foi me oferecendo coisas piores: O Tchan, Companhia do Pagode, Frank Aguiar e muito mais. Após o uso contínuo eu já não queria saber de coisas leves, queria algo mais pesado, mais desafiador, que me fizesse mexer os quadris como nunca havia feito antes. Então meu amigo me deu o que eu precisava: um cd do Harmonia do Samba. Minha bunda passou a ser o centro de minha existência, razão da minha vida. Pensava só nessa parte do corpo, respirava por ela, vivia por ela! Mas depois de muito tempo de consumo a droga perde o efeito e você começa a querer cada vez mais, mais, mais...comecei a freqüentar o submundo e correr atrás das paradas. Foi a partir daí que começou minha decadência. Fui ao show do Alexandre Pires, do Bello e do grupo Karametade. Até comprei a revista Caras que trazia o Rodriguinho na capa. Quando dei por mim, já tinha feito chapinha e pintado o cabelo de louro. Dois piercings adornavam meu nariz e meu corpo parecia uma parede pichada, de tanta tatuagem. Lembro-me de um dia que entrei nas lojas Americanas e pedi a coletânea "As melhores do Molejo". Foi terrível! Eu já não pensava mais, ia mal na escola e trabalhava só pensando na sexta-feira. Meu senso crítico havia sido dissolvido pelas rimas miseráveis e letras vazias. Meu cérebro estava travado, não pensava mais em nada!
Mas a fase negra ainda estava por vir. Cheguei ao fundo do poço, no limiar da condição humana quando comecei a gostar de melancias, bondes, tigres, MC Serginho, Lacraias, Motinhas e Tapinhas. Comecei a ter delírios e a dizer coisas sem sentido. Quando saía à noite para as baladas pedia tapas na cara e fazia gestos obscenos. Fui cercada por outros drogados usuários das drogas mais estranhas que queriam me mostrar o caminho das pedras...Minha fraqueza era tanta que estive próximo de sucumbir aos radicais e ser dominada pela droga mais poderosa do mercado: Ki-Kokolexo.
Hoje estou internada em uma clínica. Meus verdadeiros amigos fizeram a única coisa que poderiam ter feito por mim. Meu tratamento está sendo muito duro, com doses cavalares de MPB, Bossa-Nova, livros e blues. Mas o médico falou que talvez tenha que recorrer ao Jazz e até mesmo Mozart, Beethoven e Bach.
Queria aproveitar a oportunidade e aconselhar as pessoas a não se entregarem a esse tipo de droga. Os traficantes só pensam em dinheiro, não estão nem aí para sua saúde e por isso tapam sua visão para as coisas boas e te oferecem drogas. Se você não reagir, vai acabar drogado, alienado, inculto, manobrável, consumível, descartável, distante e burro. Vai perder as referências e definhar mentalmente. Em vez de encher a cabeça com porcaria, pratique esportes e, na dúvida, se não puder distinguir o que é droga ou não, faça o seguinte:
- não ligue a TV no domingo à tarde.
- não assista programação vespertina da TV.
- não entre em carros com adesivos "Fui"...
- nem os com aqueles sons em fim de escala, senão ficarás surdo no futuro...
- se te oferecerem um CD verifique se o 'artista' foi ao programa da Hebe ou ao Domingo Legal do Gugu. Mulheres gritando histericamente são outro indício.
- não compre CD que tenha mais de 6 pessoas na capa;
- não vá a shows em que os suspeitos executem passos ensaiados;
- não compre nenhum CD que tenha vendido mais de um milhão de cópias no Brasil, e
- não escute nada que o autor não seja capaz de fazer uma concordância verbal mínima.
Diga não às drogas! A vida é bela! Eu sei que você consegue!

02.12.08

Presidente mulato

A obamamania é livre e está espalhada pelo mundo afora. Amigos ou inimigos, não importa. A formidável vitória do candidato democrata à Presidência dos EE.UU. mexeu com a imaginação de todos. E não foi apenas pelo fato de ser negro. Melhor dizendo, mulato, o que para os americanos é uma ofensa.
A eleição desse moço esguio e elegante, de fala austera e grave, acende a esperança não só do povo americano, mas também de todo mundo, para que ele possa apagar o incêndio que a incompetência e a ignorância de seu antecessor ateou. Não é, portanto, mera curiosidade.
Será o Barak Obama uma grande novidade? Para nós não.
Como não?
A nossa Academia Brasileira de Letras foi fundada e teve como seu primeiro presidente um mulato, que é o paradigma da literatura brasileira: Machado de Assis, que neste ano completa cem anos de seu passamento.
Mas não pensem que apenas ele foi destaque por aqui. O presidente Nilo Peçanha, que governou o Brasil entre 1909 e 1910, em substituição ao titular que falecera, era mulato.
Filho de pai negro e mãe loira, de olhos claros, Nilo nasceu em 1867, em Campos, estado do Rio de Janeiro.
Foi um inexpressivo deputado constituinte em 1891 e renhido oposicionista a Prudente de Moraes. Acusado injustamente de participar do atentado à vida do presidente, refugiou-se por meses e ao voltar ao convívio público, em 1898, voltou à Câmara dos Deputados.
Como governador do Rio de Janeiro, em 1903, demitiu 400 servidores, eliminou repartições e rescindiu contratos da administração anterior. Cortou em 25% do próprio salário. Depois de onze anos de déficits no Estado, 1904 terminou em superávit de 1.500 contos de réis.
Governou por apenas um ano e cinco meses com o slogan “Paz e Amor”, com o intuito de evitar interferências em questões estaduais, muito comuns à aquela época.
Outras importantes e notáveis personalidades brasileiras eram negras. No momento atual não se pode deixar de se mencionar o brilhante Ministro do Supremo, Joaquim Barbosa.
Esquecê-los é uma maneira de sermos preconceituosos.

01.12.08

A TRAGÉDIA CATARINENSE

É estonteante o volume de água que desabou sobre o estado catarinense. Muitas vezes maior que qualquer previsão, pois foram mais de oito vezes o volume que seria normal. É muita água, é muita desgraça.
A terra, que necessita da água para sua fertilidade, encharcou-se, apresentando rachaduras pelas quais a água não aparecia, sinal de que estava se entranhando terra adentro. Muitos teimaram em permanecer e morreram ou ficaram ao desabrigo; outros quiseram fugir e conseguiram, mas outros não tiveram a mesma sorte.
Ficamos todos nós estarrecidos pela virulência das tormentas. A água, maior força da natureza, foi impiedosa para com os barrigas-verdes.
De todos os cantos desta terra brasilis surgiram suprimentos e agasalhos oriundos dos mais longínquos rincões. A Solidariedade deste povo ordeiro - com raríssimas exceções, como o homo politicus brasiliensis – se fez, mais uma vez, sentir. As instituições de salvamento, públicas, militares, civis e voluntárias vão recebendo as remessas de donativos e as armazenam.
Mas, espera aí, armazenam? Não é para distribuir entre os flagelados?